Empreendedorismo, palavra Sexy ou Saturada?

É um fato. Empreendedorismo é a palavra do momento. 27 800 000 resultados no Google. Na biblioteca Nacional (de Portugal) já são mais de 250 livros em Português sobre o tema.

São inúmeras as modalidades e modelos de empreendedorismo. A lista de classificações de Empreendedores segue disparada. Empreendedor Individual, Empreendedor Criativo, Empreendedor Cultural, Empreendedor Social, Empreendedor Digital, Empreendedor público, corporativo, cooperado, inesperado, serial, do conhecimento, normal, herdeiro, interno, franqueado, informal…

Será uma modinha que veio para ficar? Ou haverá verdadeiro sentido na massificação de tal bela palavra? Será essa massificação positiva ou negativa?

Que a reflexão comece pelo princípio, com definições.

Empreender, Empreendedor e Empreendedorismo

O verbo empreender origina do latim imprehendo que significa propor-se, pôr em execução, tentar.

O dicionário Priberam aponta para “a intenção ou tomar a decisão de realizar uma tarefa, uma ação ou um empreendimento, geralmente difícil” ou “pôr em execução ou dar início a uma tarefa, uma ação ou um empreendimento”.

Empreender, assim, está ligado à ação, à iniciativa, à realização, e, curiosamente, à incerteza, à tentativa.

O empreendedor, por sua vez, seria alguém que realiza a ação de empreender. Historicamente, a palavra “empreendedor” deriva do francês entreprende e remete para aquele que empreende um projeto ou uma atividade e assumindo todos os seus riscos.

No entanto, a compreensão do conceito de empreendedor se ampliou, surgindo no pensamento económico e, neste sentido, pode representar um inovador que aproveita oportunidades para desenvolver e implementar ideias e receber as recompensas financeiras pelos seus esforços. [1]

Peter Drucker definiu empreendedores como “aqueles que aproveitam as oportunidades para criar as mudanças. Os Empreendedores não devem se limitar aos seus próprios talentos pessoais e intelectuais para levar a cabo o ato de Empreender, mas mobilizar recursos externos, valorizando a interdisciplinaridade do conhecimento e da experiência, para alcançar seus objetivos”.

Assim, podemos considerar que os empreendedores são agentes impulsionadores da mudança que geram valor econômico e valor intangível.

Então, e o empreendedorismo?

O empreendedorismo pode ser visto como um processo dinâmico intrinsecamente associado ao empreendedor, o agente por trás da atividade empreendedora que atua através da inovação e criação de novos empreendimentos nas dimensões individual, organizacional, ambiental e processual.

Contudo, se verificarmos a etimologia da palavra, percebemos que esta é formada pelo adjetivo “Empreendedor” e pelo sufixo “ismo”. O sufixo -ismo deriva do grego e normalmente expressa uma ciência, doutrina, ideologia, filosofia, … – note bem: cristianismo, budismo, comunismo, anarquismo, reumatismo, romantismo, modernismo,  etc.

O empreendedorismo é mais que uma palavra, mais que um termo ou conceito, mais que um processo. O empreendedorismo é uma ideologia, isto é, um “conjunto de ideias, convicções e princípios filosóficos, sociais, políticos que caracterizam o pensamento de um indivíduo, grupo, movimento, época, sociedade”. [2]

Como ideologia, podemos considerar que o empreendedorismo é aquilo em que acreditamos e vivemos profundamente.

Atitude empreendedora vs. Projeto Empreendedor

Agora que já colocamos os pingos nos Is, podemos explorar como se manifesta o empreendedor.

Vejo duas formas clássicas de praticar o empreendedorismo: através de uma atitude empreendedora ou através da criação de um projeto empreendedor.

Atitude empreendedora

Defendo que a atitude empreendedora, por si só, pode identificar um empreendedor.

As atitudes empreendedoras, ou as capacidades empreendedoras, incluem experiências humanas e sociais necessárias para dinamizar e alavancar recursos.

“O empreendedor é um pensador independente que ousa ser diferente em um cenário de eventos comuns.” — Kuratko & Hodgetts

Em um contexto empresarial, essas capacidades inovadoras incluem a percepção e o reconhecimento de uma correspondência entre recursos criativos e oportunidades de mercado, mas as características do empreendedor contemporâneo podem ser uma lista extensa e contínua. Não há um perfil único que possa representar o empreendedor de hoje, no entanto, podemos reunir algumas características-chave para representarem um empreendedor bem-sucedido.

Compromisso, determinação, perseverança: os empreendedores são motivados para a realização, estão totalmente dedicados ao sucesso e têm capacidade para ultrapassar obstáculos e contratempos. Mantém a sua visão mesmo diante das dúvidas, do fracasso ou da oposição.

Planejamento, percepção realista, orientação para oportunidades: empreendedores com mentalidade de crescimento estão atentos ao que acontece ao seu redor e se concentram nas oportunidades em vez dos recursos, estrutura ou estratégia e, com prioridades bem definidas, podem ser seletivos na escolha das oportunidades, sabendo quando dizer não.

Autoconhecimento, alto nível de energia, controle interno, autocuidado, autoconfiança e otimismo: alta realização pode ser sinônimo de alta autoconfiança, e os empreendedores não se intimidam com situações difíceis, pois são realistas em reconhecer o que podem e não podem fazer e sabem procurar ajuda para resolver qualquer tarefa que esteja fora do seu alcance.

Iniciativa, independência, desenvoltura e responsabilidade: a natureza do empreendedor é orientada para a ação. É evidente o seu desejo de autonomia, que é a sua força motriz. O empreendedor tem o compromisso sincero de fazer a diferença, tentando realizar as coisas à sua maneira. No entanto, esse desejo de autonomia não impede que construa uma equipa.

Visão, criatividade e inovação: empreendedores bem-sucedidos são pioneiros, têm uma motivação maior que ele mesmo e criam conceitos ao invés de um produto ou serviço.

Tolerância e assumir riscos: a incerteza é inevitável, contratempos e decepções fazem parte do processo e os empreendedores eficazes são realistas o suficiente para esperar essas dificuldades. Normalmente são razoáveis ​​e tomam decisões sábias, evitando riscos desnecessários e estando cientes de quando as probabilidades estão a seu favor, mas, se o fracasso acontece, usam isso como uma experiência de aprendizagem.

São muitas qualidades positivas. COntudo, devemos realçar, ainda, que os aspetos positivos desses fatores também têm potencial destrutivo, por exemplo: um otimismo irreal, uma necessidade exagerada de controle e uso excessivo de energia, podem causar danos físicos e mentais que irão se refletir, inevitavelmente no seu dia-a-dia ou empreendimento.

Projeto empreendedor

A atitude, o comportamento, por si podem refletir um empreendedor, mas, para realizar um projeto empreendedor, qualquer que seja o seu formato– empresarial, social, cooperativo, sem fins lucrativos, individual ou com equipe, etc. – é necessário ir bem além da atitude, ou das soft skills.

Para um projeto nascer e prosperar, serão necessárias as competências técnicas, ou hard skills, mas também são imprescindíveis predisposição e estratégia para compreender e contornar fatores externos, como por exemplo, as condições do mercado, fatores políticos e, claro, fatores culturais.

Para mim, os fatores culturais são os mais interessantes a explorar, Hofstede, psicólogo holandês, apresenta-nos a teoria da dimensão cultural, uma análise cultural sob 6 dimensões que nos dá pistas de como os fatores culturais afetam, de facto, a atividade empreendedora numa determinada região/cultura. Neste artigo, inclusive abordo alguns dos principais desafios culturais para o fortalecimento empreendedorismo cultural e criativo em Portugal.

Bem, ainda, podemos identificar e caracterizar um projeto empreendedor pelo seu ciclo. Segundo Kuratko e Hodgetts, a atividade empreendedora é comumente vista como tendo cinco estágios principais. Todas as etapas deste ciclo de vida são pontos estratégicos importantes e cada uma requer um conjunto diferente de estratégias:

Fase 1: Desenvolvimento de novos empreendimentos

Esta primeira etapa consiste na fundação do processo empreendedor. Aqui, são determinadas as motivações para o projeto, a filosofia geral, a missão, valores e a direção do projeto. Este é o processo criativo de exploração que precede a avaliação e o networking.

Fase 2: Atividades iniciais

No segundo estágio, o foco está no trabalho de base necessário para a criação de um plano de negócios formal, busca de capital, realização de atividades de marketing e desenvolvimento de uma equipe empreendedora eficaz. Exige estratégia com esforços máximos e um minucioso trabalho de comunicação poderá ser determinante para obter os recursos ideais para o arranque inicial.

Fase 3: Crescimento

Este é um estágio de crescimento. Devido à concorrência e outras forças de mercado, geralmente são necessárias mudanças na estratégia empresarial. É uma fase de ajustes e adaptação. Em que pequenos ajustes de posicionamento podem fazer a diferença.

Fase 4: Estabilização do negócio

Nesta fase, o esforço realizado vai amadurecendo para uma existência mais estável e estrutural. O negócio vai aprofundando sua sustentabilidade estrutural e melhorando a sua posição no mercado.

Fase 5: inovação ou declínio

A última fase passa por lidar com o crescimento maduro em um ambiente fortemente conectado. É preciso inovar para que o projeto permaneça vivo e ativo. É hora de identificar e implementar caminhos sustentáveis ​​para um crescimento contínuo. É hora de reestruturar o posicionamento e a estratégica do seu projeto.

Empreendedorismo sem conformismo

Sexy ou Saturada, a palavra empreendedorismo é bela, alinhada, e bem aplicada.

Seja como for, empreendedor com atitude empreendedora ou com projeto empreendedor, o importante é mantermo-nos com uma atitude voltada para a mudança, quer como pessoas, quer como profissionais.

O importante é mantermo-nos focados na nossa ação diária, focando na direção em que desejamos caminhar.

Assim, no fundo, empreender ou não, será apenas uma questão gramatical.


[1] Kuratko, Donald F. & Hodgetts, Richard M. (1995). Entrepreneurship: A Contemporary Approach. Fort Worth: Dryden Press.

[2] “ideologia”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2021, https://dicionario.priberam.org/ideologia.


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