Como falar sobre o que você faz

Um guia para profissionais multipotenciais.

O que você faz da vida? Eis uma pergunta que começa amizades, abre portas inicia projetos, trabalhos, parcerias. Essa é a pergunta que respondemos quando fazemos check-in em hotéis, quando abrimos conta no banco, que inserimos em nossos perfis em redes sociais ou que partilhamos quando conhecemos alguém novo.

Mas pouca gente realmente entende o peso que essa simples pergunta sustenta.

O que você realmente faz da vida?

Do que falo eu quando falo sobre minha profissão

Encontro sempre alguma dificuldade em definir a um único substantivo tudo o que executo enquanto empreendedora individual. Nem sempre é fácil resumir uma vida profissional feita de tantas colagens e encontros.

Embora atue maioritariamente como facilitadora de projetos de comunicação, passeio com desenvoltura pelos processos editorais, branding, web design, revisão e criação textual. Quais desses temas é o mais relevante? Bem, isso depende do contexto, do projeto e do meu momento pessoal.

Confio na ideia de que a mente de um profissional criativo não seja uma ilha, mas um arquipélago de capacidades interligadas por pontes de conhecimento, dedicação e alguma dose de incerteza. Alguns dos melhores profissionais que conheço e me inspiro são pessoas que atuam em diferentes áreas com enorme fluidez e eficiência, referindo com orgulho: Clara Sarmento, Filipe Jeremias, Valter Nascimento.

O problema reside na visão atual um tanto equivocada de que profissionais altamente qualificados são como super-heróis centralizados num único tema – quando na realidade a economia digital e a educação continuada nos provam, cada vez mais, que ser competente quase sempre é sinônimo de polivalência.

Diante de tantas possibilidades, é viável ter uma representação digital ancorada em diversos saberes e não na expertise soberana? Como podemos nos apresentar profissionalmente quando somos profissionalmente plurais?

Criar uma presença digital polivalente é possível (mas não é simples)

“Se pela manhã você souber com precisão como será o seu dia, você está meio morto – quanto mais precisão, mais morto você está.”

A frase acima é do ensaísta estatístico Nassim Nicholas Taleb, um dos grandes defensores de uma visão mais ampla do que chamamos “fazer da vida”.

A análise de Taleb diz respeito também ao que estamos discutindo aqui: a confusão entre expertise e rigidez. Profissionais com visões rígidas de suas áreas de atuação esbarram constantemente em muros criados por eles mesmos ao redor de suas ideias.

Podemos criar, de modo prático e eficiente, uma presença digital sólida enquanto profissionais polivalentes? Sim, mas isso vai exigir de você um outro tipo de visão do seu trabalho e do mercado em que você está inserido.

Vamos fazer isso juntos em 3 passos e um pulo.

Passo 1: confia sempre em ti mesmo

Ter um conhecimento flexível e uma curiosidade genuína não deveria ser coisa de gente “sem foco”, mas uma representação daqueles que trabalham de maneira interconectada.

O primeiro passo do profissional polivalente, ou empreendedor multipotencial, é se posicionar positivamente em relação a isso. Não tenha vergonha ou medo de seus talentos. Não se considere “perdido” por não saber se gosta mais de jardinagem ou astrofísica. Pelo contrário, sinta-se grato por ter em sua mente uma ponte que liga esses dois conceitos tão fascinantes.

Crie conexões ativas com outros profissionais criativos e multifacetados, fale sobre você e perca o receio de parecer vago.

Passo 2: flerte com seus possíveis Eus

Este é o título de um dos capítulos do livro Por que os generalistas vencem em um mundo de especialistas, de David Epstein. Nesta obra o autor insere um conceito essencial:

Ter uma visão geral não é sinônimo de não ter visão nenhuma.

Dentro da nova economia digital estamos cada vez mais cruzando linhas anteriormente consideradas intransponíveis, onde um jardineiro pode usar sua habilidade criativa para desenvolver produtos educacionais, ou uma jornalista pode expressar suas ideias através de mídias visuais.

Epstein fala do poder transformador da “experiência da compreensão”, um tipo de insight específico que só ocorre quando vemos nossas tarefas habituais por outro ponto de vista.

Um exemplo prático:

Em meu trabalho como copywriter posso me sentir algumas vezes cansada e até sem ideias, porém, quando me afasto para realizar uma tarefa mais técnica, como formatar um site, fica compreensível que os mecanismos da escrita são diferentes daqueles da criação de web design. Há um “choque” entre as duas competências, mas uma não anula a outra.

Aqui ocorre um tipo peculiar de insight que Epstein considera fundamental para uma vida criativa e cheia de oportunidades. Uma troca de canal que fomenta nossa criatividade. E isso só dará certo se você se acostumar a “trocar de canal” com desenvoltura.

Uma boa dica é criar rotinas para cada um dos seus Eus. Eis o meu esquema:

  • Pela manhã realizo tarefas que precisam de bastante concentração e, normalmente, foco-me nos trabalhos de copy para clientes ou em redação aqui para o Blog.
  • Pelo começo da tarde desenvolvo tarefas técnicas ou administrativas, como por exemplo, realizar chamadas, pagamentos, atualizações de sites.
  • Do meio para o final do dia é hora de escrever um pouquinho de poesia e crônicas de viagens (minhas paixões paralelas e cada vez mais presentes, pode ver alguns destes trabalhos no meu Blog do Medium).

Este esquema não é fixo. Ele flui com o meu gosto, interesse e disposição.

Passo 3: visite um mundo mais amplo (ou torne-se um polvo)

Em suas pesquisas, David Epstein descobriu que “os especialistas mais bem-sucedidos pertencem ao mundo mais amplo.” O que isso quer dizer? Que pessoas muito boas em suas áreas não são sempre como nerds correndo atrás da perfeição milimétrica de um nicho, mas pessoas cheias de braços, curiosidade e até mesmo indecisão – como um polvo.

O autor descobriu que vencedores do Nobel são mais propensos a atuar em diferentes áreas. Cientistas de renome são muitas vezes também músicos, escritores, colecionadores, ambientalistas, criadores de design ou ativistas em causas nobres. Do mesmo modo que autores laureados dedicam grande parte do tempo a outras coisas que não a escrita.

Isso não prova que sejam excelentes em todas essas áreas, mas quer dizer que tais pessoas são excepcionais em algo justamente porque contrapõem esse algo a outra coisa igualmente estimulante. Escrever pode ser mais produtivo se você dividir o seu tempo entre a tela do laptop e o jardim, por exemplo.

Aprenda a criar por junção, não por eliminação. Explore seus tentáculos e brinque com as possibilidades. Literatura e artesanato? Marketing e filosofia? Música e pesquisa acadêmica? O limite só existe se você o colocar em cena.

Eis o pulo: priorize e organize seus talentos

Além dos 3 passos que vimos, temos aqui um pulo. Chamo de pulo todo tipo de ação que pode mudar efetivamente os rumos de nossa produtividade.

O pulo para quem precisa se firmar como um profissional multipotencial é mapear suas habilidades de tempos em tempos. Pelo menos uma vez por ano coloque no papel o que você realmente faz bem AGORA, o que fazia bem ONTEM e o que fará bem AMANHÃ.

Mapear os talentos é uma forma de entender como sua mente está se movendo através do fluxo de informações que experimentamos todos os dias.

Liste suas competências principais. Comece com as 3 coisas que você faz melhor.

Insira mais 3 competências auxiliares.

E quem sabe mais 3 competências paralelas.

Assim você terá uma grade inicial com 9 competências divididas por grau de envolvimento, formação e conhecimento espontâneo. Com essa lista em mãos ficará mais fácil traçar rotas, criar currículos flexíveis (falaremos adiante) e se posicionar em diferentes nichos de trabalho.

Cada profissional poderá ter necessidades diferentes. Mas lembre-se: mais competências darão ao seu trabalho um raio maior, mas também sua força de atuação será mais difusa.

Gerando trabalhos que não há nome

Hora de partir para um posicionamento digital onde você será sua própria marca. Como começar?

Pluralidade de atuação, simplicidade de comunicação

Centralize sua comunicação profissional em poucos canais: um site de qualidade e um perfil em UMA rede social deve bastar. Com suas informações centralizadas se torna mais simples controlar todos os braços do polvo criativo.

Não tenha medo em explicar aos clientes em potencial o que você faz. Faça isso de modo claro, mesmo que pareça estranho. A maioria das pessoas lida bem com a pluralidade, desde que isso seja dito de modo bem objetivo.

Tenha um currículo flexível

Crie um portfolio para cada um dos seus Eus profissionais. Quantos? Depende de sua forma de trabalhar e de seus objetivos. Na dúvida, dívida seus portfolios em:

  • Competências de formação: aquilo para o qual estudou formalmente.
  • Competências de trajetória: aquilo que aprendeu ao longo de sua profissão, esteja isso ligado à sua formação inicial ou não.
  • Competências de descoberta: aquilo que você faz porque aprendeu a fazer através de um hobbie ou interesse que evolui da curiosidade para o interesse profissional.

Para cada competência, um plano de aprimoramento

Ter muitas competências só faz sentido se elas conversarem entre si e evoluírem em direção a novos modelos de trabalho. Crie ciclos de aprimoramento. Num verão você pode fazer um curso para melhorar suas habilidades baseadas em hobbies ou gostos pessoais. Ou ainda, pode usar os recursos do ensino a distância para melhorar suas habilidades profissionais de formação.

Invista em minicursos, consultorias, workshops, leituras e conversas. O que vale é saber que cada habilidade precisa ser renovada de tempos em tempos. Quanto mais frescas elas estiverem, mais chances de novas parcerias profissionais.

Crie projetos híbridos e mostre do que você é capaz

A melhor forma de explicar que você é um profissional criativo e multifacetado é exibindo sua expertise ao mundo. Dê preferência para projetos que usem todo o seu potencial. Registe tudo e peça sempre feedback de seus parceiros e contratantes.

Resumindo

Discutimos aqui um tema delicado: como se firmar num mercado digital extremamente seletista quando somos profissionais criativos e polivalentes.

Esse é um tema que merece outras análises, mas podemos entender melhor que tudo depende da postura do profissional dentro do mercado. Se você confiar em sua multicapacidade de atuação, o mercado irá compreender a sua ideia.

A capacidade de atuar em diferentes áreas é algo para ser celebrado, não criticado. É uma dádiva que merece ser aprimorada e polida. Profissionais multifacetados são o cerne do ambiente digital, cada vez mais comandado por pessoas curiosas, ousadas e com visão ampla.

Eis uma jornada cheia de desafios. Mas se precisar de ajuda para consolidar sua presença digital, ou ampliar sua comunicação, não hesite em me chamar.

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